Sobre as pequenas grandes coisas

Clarice Lispector escreveu uma crônica chamada “O milagre das folhas” que muito me encanta. É uma crônica suave, essa história do milagre que não é visto como milagre e sim como coincidência, sem que isso quebre o encanto. Veja o desfecho: “Um dia uma folha me bateu nos cílios. Achei Deus de uma grande delicadeza”. Vai parecer exagero, mas nesse momento virei uma folha. A leveza tomou meu corpo como aquelas alegrias que nos entorpecem, a visão que tive foi de folha e pude até ver em quais cílios cairia, segredo. Coincidências, milagres, sinais. A interpretação depende muito do seu estado químico, ou espiritual, ou os dois. Minha interpretação sempre foi para sinais, sinais tão pequenos e que me assombram. Inevitável não voltar à Clarice e seus momentos epifânicos. Lembro-me do dia que a procurei na biblioteca depois que minha adorável professora de literatura explicou o que era epifania, para mim foi como a definição de inúmeros momentos de minha vida. Como não recordo exatamente as palavras de Ana Maria, recorro ao Houaiss: manifestação ou percepção da natureza ou do significado essencial de uma coisa. Apreensão intuitiva da realidade por meio de algo geralmente simples e inesperado (como um lugar-comum ou uma pessoa vulgar). Não confundir essa sensibilidade com alienação, não, é o oposto. Na verdade, se deixo de perceber esses sinais é porque estou alienada da vida, ocupada demais, apressada demais, triste demais. Ninguém deve se alienar assim. Cada folha que cai, vento que empurra, cor que nasce, sorriso que insiste, novo que estranha, e tanta coisa que se revela assim, pela natureza ou por palavras. Certa noite de céu límpido, estávamos observando as estrelas surgirem, a pessoa mais especial do mundo ensinou-me então que as estrelas ficam na espreita e quando elas vêem que tem alguém olhando aparecem. Mais doce impossível. Agora mesmo chamei minha mãe para ouvir a versão do Queen para “Somewhere over the rainbow”, os olhos brilharam, um grande sorriso e disse deslumbrada: “Que lindo!”, mais um sorriso inesquecível. Já contei do dia que estava andando pela faculdade e? Não contei. Estava novamente na mais especial das companhias quando o galho de uma planta se soltou de não sei onde e repousou na minha frente primaveras de um rosa-claro. Foi minha vez em achar Deus de uma grande delicadeza, e ainda, agradecer à Primavera pela gentileza. Ora, sua louca! Sinalizam o quê? Acho. Sinto pelo achismo. Acho que existe algo ou alguém querendo mostrar que mesmo estando profundamente triste com as atrocidades do mundo, continua acreditando nesse mundo e ainda cria, por amor, manifestações de sua vivacidade, algumas grandiosas. No entanto, pela necessidade freqüente de mostrar seu amor criou mágicas sutilezas para dizer todos os dias: quero vê-los felizes. Imagino que essa seja a origem de todo nosso desejo em ver quem amamos feliz. Uma corrente se formou e é eterna, se movimenta em todos os gestos, sinais, coincidências ou milagres. Feliz, mesmo consciente, mesmo sabendo do que sabe. Continuo insistindo, conviver com suas tristezas, inconformações e dores de forma cordial para que elas não lhe machuquem e lhe impeçam de lutar, de viver. Seja feliz e sejamos todos.

Escrito por Carol F. às 20h05
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